Educação, inclusão e distanciamento social











O momento que vivemos é único, na educação e em tudo mais, uma oportunidade e um desafio de grandes proporções.

Talvez estejamos todos muito ocupados pensando em como dar continuidade às aulas de forma remota, o que fazer com os nossos conteúdos já tão bem testados e preparados para as aulas presenciais, como lidar com o aplicativo de vídeo conferência escolhido, e tantas questões que nos afligem nesse momento, que estamos deixando de lado a mais importante de todas: - E se, quando as escolas voltarem a receber seus alunos presencialmente, propormos um novo modelo? E se tentarmos algo novo?

Essa é uma oportunidade sem precedentes que se abre para escolas e educadores: a chance de fazer diferente, de fazer a revolução na educação de que tanto se fala nos últimos anos. Artigos como esse da Educating All Learners (Educando todos os Alunos) nos fazem refletir.

Escolas, negócios, governos estão tendo a necessidade de repensar seus modelos de atuação e como estão de fato atingindo objetivos e atendendo seus públicos. Repensar significa criar cenários possíveis deste retorno ao “normal” de outro jeito. Entendendo os novos pontos de equilíbrio.

Esse retorno também precisa ser avaliado desde já: qual é o ponto ideal, em qual momento as perdas pela falta do dia a dia escolar ficam maiores do que os riscos de saúde? O que podemos de fato cumprir dos objetivos educacionais de forma remota? Quais as adaptações possíveis para que se garanta um retorno com segurança e sem grandes “buracos” acadêmicos?

Questões como essas que tem sido pensadas no mundo todo, incluindo referências educacionais como a Finlândia .

Na educação, o distanciamento tem potencializado as diferenças sociais e a desigualdade de acesso, afinal a migração para o modelo remoto exige acesso à internet e equipamento, o que está longe de ser uma realidade para muitos brasileiros.

E nesse cenário, com tanto a ser resolvido, a inclusão dos alunos com deficiências e transtornos de aprendizagem parece rumar ao final da fila. Lamentável, pois o caminho que olha para quem tem dificuldade inclui quem não tem, mas o caminho contrário nem sempre é inclusivo.

Nesse momento, olhar para os alunos com deficiências e transtornos de aprendizagem se assemelha ao desenvolvimento de um projeto, e os casos que têm mostrado maior sucesso no envolvimento e aprendizado dos alunos escolheram esse caminho, passando pelas 4 etapas fundamentais:

MAPEAMENTO -> PLANEJAMENTO -> IMPLEMENTAÇÃO -> CHECAGEM CONSTANTE

Um mapeamento inicial dos alunos da educação especial e com transtornos, deve ser feito para se conhecer especialmente dois fatores: acesso (à internet e equipamentos como computador, tablete ou celular) e rotina familiar (para entender melhor como a rotina do aluno está sendo afetada pelo isolamento). Existem exemplos de escolas públicas que diante desse mapeamento forneceram àqueles que não tinham acesso, um tablete ou computador com internet. Assim minimizam-se as desigualdades. Entender a vida do aluno é tão importante, que uma experiência contada pelo diretor de uma escola para jovens com defasagem escolar em uma escola no Bronx em Nova Iorque foi marcante. Ele tinha várias alunas adolescentes que já eram mães, entendeu que ficavam preocupadas se iriam ter dinheiro para comprar as fraldas para seus filhos. A escola providenciou as fraldas. Assim as alunas vinham mais tranquilas para escola e se engajavam muito mais no estudo. Esse olhar holístico em relação aos alunos faz toda a diferença nos resultados.

A partir desse mapeamento se pode fazer um planejamento mais individualizado e adequado à realidade do aluno. E os melhores planejamentos são aqueles que estão considerando pelo menos um médio prazo, não contando com um breve retorno das atividades presenciais. Planejar para um prazo maior fará com que os resultados sejam melhores, já que não precisará ser revisto a todo momento.

Implementa-se então o planejamento, que deve ser coerente com o que já havia de objetivos de aprendizagem para esses alunos antes do fechamento das escolas. O foco deve ser manter o processo de evolução do aluno, mesmo que um pouco mais lento, mas manter a evolução.

Como estamos falando de ferramentas, estratégias e atividades novas, uma checagem constante é ainda mais necessária, para que eventuais falhas ou estratégias que estejam equivocadas possam ter seu rumo rapidamente corrigido.

Dentro do planejamento e implementação devem ser consideradas 5 dimensões fundamentais para o sucesso dessa nova fase da educação.

Como sempre, gostamos de lembrar que se pensarmos nos alunos com necessidades especiais, pensaremos em todos os alunos, então por que não?

1. ORGANIZAÇÃO E ROTINA

Criar uma rotina estruturada para funcionar bem a partir de casa é um desafio para muitos adultos, imagina para crianças e adolescentes. Apoiá-los com cronogramas claros, planilhas para ajudar no planejamento de tarefas, aulas e trabalhos, instruções diretas e objetivas, a sugestão de pequenas paradas para esticar as pernas, fazer um lanche. Todas essas recomendações vão ajudar o aluno que está em casa. Aqueles com dificuldade de foco e atenção (como TDAH) ou com uma fraca rota de memória (como os Disléxicos) precisam muito desse apoio para se organizarem e não se perderem com as distrações da casa. Aqueles que são extremamente meticulosos sentem falta da rotina, por isso uma nova deve ser criada.

Temos algumas dicas da especialista Fernanda Cavalcanti sobre como ajudar na organização em nosso blog O apoio das famílias é fundamental, para que os alunos consigam momentos e locais tranquilos para estudar e fazer suas atividades. A aproximação entre escolas e familiares nunca foi tão importante. Muitos pais e mães estão trabalhando de casa, o que torna a tarefa de ajudar seus filhos ainda mais difícil, precisamos estar atentos a essa questão e trazer facilitadores.

O Instituto Rodrigo Mendes comenta justamente sobre esse importância da aproximação escola-família nesse artigo que também dá dicas aos educadores.

2. CONEXÃO

A maioria dos alunos se ressente da falta dos amigos, para aqueles com dificuldades de sociabilização como geralmente é caso dos alunos com TEA (transtorno do espectro autista), o fechamento das escolas pode significar retrocessos. Criar mecanismos para que essas conexões se mantenham é super importante.

Logicamente os adolescentes já tem seus grupos e se “falam” constantemente nas mais diversas redes sociais das quais fazem parte, mas os mais novos e aqueles com dificuldades podem sentir essa lacuna. Construir páginas online para compartilhar aprendizados e trabalhos entre os alunos, com mediação do professor, pode ajuda-los bastante. O professor pode incentivar o compartilhamento de experiências através de perguntas como:

Qual é sua rotina? Como você faz sua tarefa? Qual a sua estratégia quando a casa está barulhenta?

Assim cada um vai contando um pouco de sua rotina e os outros podem comentar, e até descobrir ações e estratégias que poderá adotar. Trabalhos compartilhados também podem ser bem interessantes. Os professores podem pedir para que os alunos comentem em pelo menos 3 trabalhos de colegas, é uma super oportunidade para ensinar sobre feedback positivo e não obriga todos a fazerem apresentações online (o que pode ser bem complexo).

Os professores também devem estar conectados com seus alunos, disponibilizando horários online para tirar dúvidas ou até tendo uma agenda regular de conversas individuais. 10 minutos por semana para saber como as coisas estão andando já contribuem para manter o professor atualizado.

3. COLABORAÇÃO

Colaboração entre professores é essencial em um momento onde tudo é novidade, porque assim experiências e aprendizados podem ser compartilhados e todos crescem muito mais rápido. Disciplinas diferentes podem trabalhar um conteúdo de forma conjunta através de projetos; mas principalmente as estratégias adotadas por um professor e que se provaram efetivas podem ser adotadas pelos outros, criando um ciclo positivo.

Andreas Schleicher, director do Pisa, fala nessa entrevista sobre a importância dessa colaboração entre os professores.

4. EMOCIONAL

Olhar o aluno de forma integral já deveria ser uma preocupação da escola tradicional, no modelo remoto, se torna ainda mais relevante. O distanciamento não é um processo fácil nem usual para ninguém, e os alunos também são afetados.

Ensinar e incentivar prática de meditação e atividades físicas viáveis de serem feitas no ambiente doméstico são um primeiro passo. Outra ação é ajudar a construir uma atitude positiva com perguntas e encorajamento para se desafiar diariamente a fazer melhor, buscar suas próprias estratégias, fazer uma auto avaliação, ajudar colegas, etc.

Alunos que tem deficiências e tinham na escola um desafio de aprendizado, não podem ser abandonados pelo distanciamento. Eles precisaram estar emocionalmente amparados e serem incentivados a se manterem ativos e em constante evolução mesmo que as condições não sejam as mais favoráveis. Muitos já estão tendo que viver com a falta de terapias que são fundamentais no seu desenvolvimento, como terapias fonoaudiológicas, comportamentais, físicas ou cognitivas. Essa rotina também produzia encontros importantes para esses alunos e a falta desses encontros contribui de forma negativa para o aspecto emocional.

5. CONTEÚDO

Transformar uma aula presencial em remota não é uma mera adaptação de meio. Fazer do ensino remoto um vídeo do professor falando sem interação ou um webinar não é e-Learning ou Ensino a Distância (EAD). Estar preparado para os mais diversos cenários deveria já ser uma preocupação há muito tempo na formação dos professores, como comenta Lucia Dellagnelo no artigo do site Porvir.

Para se ter um ensino a distância de qualidade é preciso muito mais do que uma adaptação, o conteúdo deve ser replanejado.

Replanejado para que possamos nos aproveitar das possibilidades e ferramentas do remoto. O primeiro quesito que precisa ser repensado é o formato. Vamos propor uma aula meramente expositiva, um webinar? Por vezes é necessário, mas também podemos nos apropriar das ferramentas do mundo digital, como vídeos de outros educadores, filmes, documentários, aplicativos, testes entre outros para dar uma nova dinâmica ao conteúdo. E pensando nos alunos com necessidades especiais, esse é um momento em que se tem diversas ferramentas que podem ajudar nesse processo, que podem ser adotadas de forma permanente. Nunca se teve tanto à disposição. A curadoria da Domlexia está sempre olhando ferramentas e dicas para divulgar.

A tal sala de aula invertida combina muito com ensino remoto. Na sala de aula invertida, primeiro o aluno recebe material para estudar o conteúdo (e aqui vale vídeo, áudio e leitura) e depois no encontro (hoje online) com o professor e os colegas, há um debate mediado pelo professor, com questionamentos e reflexões sobre o conteúdo aprendido. Dependendo do assunto, pode gerar experimentos mão na massa, que o aluno irá fazer em casa e depois compartilhar os resultados com o grupo.

A apresentação de materiais, e-mails, comunicados, apostilas e outros, também deve ser pensado para facilitar o entendimento, com instruções claras e objetivas, fonte que facilite a leitura do texto (no caso de disléxicos, por exemplo) e linguagem adequada à faixa etária dos alunos.

Veja também outras dicas .

Ensino a distância não é sinônimo de tarefa de casa.

Não adianta nada dar montes de trabalhos e projetos para seus alunos fazerem, se o aprendizado que tiveram nesses trabalhos não for retomado e consolidado em uma atividade síncrona, de discussão sobre o tema, de compartilhamento e/ou avaliação.

Os alunos precisam de devolutivas e incentivo para progredirem.

E aqui entra um outro desafio, como avaliar esse aprendizado, porque testes e provas à distância têm que ser repensados. Se a pergunta não é reflexiva, se não exige raciocínio, criatividade, pensamento, então basta copiar, de qualquer lugar, na frente do computador isso significa um simples abrir de uma nova janela. Devemos utilizar outros instrumentos para acompanhar desenvolvimento e aprendizagem, compor notas a partir de diversas frentes de avaliação.

A migração do mundo presencial para virtual coloca em dúvida um dos conceitos mais enraizados da nossa sociedade: o tempo.

Usamos o tempo para medir trabalho, competências e qualidade. As relações de trabalho são baseadas em tempo, 8 horas/dia, 40 horas/semana, e assim por diante. A educação não fica fora, é preciso x horas letivas para se ter um determinado diploma ou certificado. No modelo remoto, esse conceito de tempo perde totalmente o sentido. Primeiro torna-se claramente incontrolável, afinal quem ainda não participou de uma reunião remota, apenas deixando o link conectado e continuou fazendo outras atividades? Então o que devemos medir, não é mais o tempo, mas sim... o aprendizado e desenvolvimento!!

Na educação especial sempre falamos que o mais importante é se ter uma tendência de constante melhoria e evolução. Isso como falamos no início do artigo, vale para todos os alunos, inclusive os da educação especial.



Nadine Heisler é CEO da Domlexia, mãe de disléxica e apaixonada por educação.

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